perfeita IM perfeição

A presente exposição coletiva reúne quatro artistas que exploram, cada qual à sua maneira, a técnica com a liberdade gestual, entre cálculo e intuição, entre controle e acaso. Partindo da pergunta — a imperfeição na arte é a ausência da técnica? — a mostra propõe uma reflexão sobre os valores que atribuímos ao processo e resultado na produção artística contemporânea.

Se, historicamente, a perfeição foi associada à maestria e ao domínio absoluto dos meios, hoje ela se desloca. Não é mais apenas virtuosismo, mas também decisão. Da mesma forma, a imperfeição deixa de ser entendida como ausência de técnica ou simples “feeling” para afirmar-se como escolha consciente, estratégia poética e posicionamento crítico.

Nesta exposição, tanto a precisão quanto o desvio emergem como construções deliberadas — gestos que revelam o sentir antes do racionalizar. Em um contexto saturado pela artificialidade visual e pelo refinamento das novas tecnologias, o fazer manual reaparece não como nostalgia, mas como afirmação de presença. A materialidade — da tinta, do suporte, do corpo, do tempo investido — torna-se linguagem. O gesto visível, o traço que hesita, a superfície que revela camadas e correções, inscrevem no trabalho a experiência humana como discurso. As quatro artistas aqui em diálogo exploram a partir de práticas distintas, mas convergentes na valorização do processo. Seus trabalhos expõem a gestualidade como marcas constitutivas da obra. A imperfeição, nesse sentido, não é incompletude, mas potência: evidencia o percurso, a decisão, o arriscar-se.

Mais do que opor técnica e sensibilidade, a exposição sugere que ambas coexistem em um campo de escolhas. Cada obra carrega a consciência de que toda forma é resultado de um posicionamento. Assim, a arte afirma-se como leitura de época: um comentário sobre o excesso de polimento digital e sobre a necessidade de reinscrever o corpo no fazer artístico.

“Perfeita IM Perfeição” convida o público a observar não apenas o resultado final, mas o que pulsa sob a superfície das obras: o gesto. Entre controle e entrega, a mostra propõe que talvez a verdadeira precisão esteja justamente na coragem de assumir a imperfeição como linguagem e permitir sentir aquilo que ela nos propõem sentir, seja o belo ou o estranhamento.

Como diria Caetano Veloso: “É que Narciso acha feio o que não é espelho’’. Mas é no estranhamento que convidamos nossa bagagem pessoal para interpretar aquilo que a arte nos propõem sentir.

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Isadora Nicoladel